2.9.04

Ouvi Dizer

Dizem que as mulheres são umas putas...que são criaturas arrivistas que, num simples bafejo, renegam o dom da vida.
Dizem que as mulheres são seres decadentes...que perderam a feminilidade romântica, outrora regaço da masculinidade envergonhada.
Dizem que as mulheres são porcas... que são seres tristes, de ventre oco, por renunciarem à sua condição predestinada de amamentar.
Dizem que são vazias...que expõem a loucura dos tempos modernos e que, num esbracejar imperceptível, sacodem o sonho da maternidade.
Dizem que são criminosas.
Dizem que são egoístas e inconscientes...que não procuram alternativas e que, pela sua fraqueza, redundam no facilitismo.
Dizem que a pílula e o preservativo são pecado...que o termómetro é um método contraceptivo fiável.
Dizem, até, que uma menina de 16 anos é uma excelente mãe...que é uma heroína, vangloriada em panfletos cor de rosa e azul bébé. Dizem que a barraca, apesar de tudo, tem condições...que não interessa a ausência do pai, que não importa se o avô tem 35 anos e está preso há sete, se a avó tem 33 e trabalha 12 horas por dia, a limpar os corredores do hipermercado, desde que haja amor materno.
Dizem que há outras soluções... que o Estado tem orfanatos, "tipo casa pia", onde o pequeno pode, quem sabe, aprender um ofício.
Dizem que se o Estado não o fizer, a Igreja o fará.
Dizem que, se nenhum destes resolver a "questão", há famílias equilibradas e normais, perturbadas, tão-só, pelo desejo dos anos e pela frustração dos meses, que estão dispostas a amar, a qualquer preço.
Dizem que o zézinho, à data, um aglomerado de células imperceptível, quando tiver 9 meses vai chamar-se bernardo. Quando atingir os 6 anos de idade, vai frequentar o colégio alemão e que quando tiver 16 irá à sua primeira festa na Kapital. Depois, quando chegar aos 18 anos, após embriagar a sua namorada, vai levá-la até à casa de fim-de-semana, em Azeitão, onde terão relações sexuais, de uma forma, mais ou menos, consentida. O zézinho vai pedir-lhe para passar lá o resto do fim-de-semana e ela acederá ao convite - porque no amor juvenil não há espaço para temores e dúvidas - alertando-o, no entanto, que deixou a caixa da pílula em casa, em Lisboa. Então o zézinho dir-lhe-à: "Não te preocupes, eu não me vim dentro de ti!" e ela sorrirá timidamente. Até porque a tia tété e a tia biducha nunca lhes explicaram que, para engravidar, não é necessário que a ejaculação ocorra dentro da vagina, bastando a mera penetração e a libertação de fluídos que contenham esperma. Também, nas aulas de Educação Sexual (quando as há), esse tema foi abordado, de forma ténue, no mesmo dia em que se ensinou o modo correcto de colocar o preservativo, mas eles estavam demasiado ocupados a troçar com o Ismael: "Se isso ficar pequeno, cortas a ponta!". O zézinho nunca tem problemas e das duas uma: ela vai até Espanha e resolve o assunto - com sorte os pais dela nem têm conhecimento do sucedido - e depois termina-se a relação, porque a experiência da rapariga é um fardo demasiado pesado para ele carregar (na sua óptica, a solução ideal) ou, se ela não estiver mesmo disposta e fizer muita questão, casam e, no futuro, o zézinho torna-se presidente, por convicção, de uma associação do género "famílias unidas pela virtude e moral", "pais pela decência" ou "famílias numerosas e felizes".
Dizem que as mulheres são criminosas...porque não optaram, no imediato, pela missão divina da maternidade. Porque, conscientes da insustentabilidade da situação, com o apoio dos seus "companheiros", tomaram a única solução, moral e eticamente, correcta. Porque escolheram uma maternidade responsável e digna que, se alguma vez se verificar, será num futuro com condições, num manto de afecto e sem estigmas. Porque dar vida implica responsabilidade ilimitada e um compromisso eterno. Porque, futuramente, se assim o entenderem, poderão ser Mães.
Dizem que as mulheres são umas putas, seres decadentes e porcas...talvez sejam...quando não permitem que as outras possam, livre e conscientemente, em condições dignas, escolher.
Dizem que as mulheres são criminosas...talvez sejam...quando aparecem na televisão a apregoar a mensagem do Santo Padre e a regurgitar a boa nova do direito à vida, mal assimilada em conversas de esplanada, no Guincho, ou em reuniões de fim de tarde na Quinta da Marinha.
Dizem que meninas de 16 anos são boas mães ou...?!