Ouvi Dizer
Dizem que as mulheres são umas putas...que são criaturas arrivistas que, num simples bafejo, renegam o dom da vida.
Dizem que as mulheres são seres decadentes...que perderam a feminilidade romântica, outrora regaço da masculinidade envergonhada.
Dizem que as mulheres são porcas... que são seres tristes, de ventre oco, por renunciarem à sua condição predestinada de amamentar.
Dizem que são vazias...que expõem a loucura dos tempos modernos e que, num esbracejar imperceptível, sacodem o sonho da maternidade.
Dizem que são criminosas.
Dizem que são egoístas e inconscientes...que não procuram alternativas e que, pela sua fraqueza, redundam no facilitismo.
Dizem que a pílula e o preservativo são pecado...que o termómetro é um método contraceptivo fiável.
Dizem, até, que uma menina de 16 anos é uma excelente mãe...que é uma heroína, vangloriada em panfletos cor de rosa e azul bébé. Dizem que a barraca, apesar de tudo, tem condições...que não interessa a ausência do pai, que não importa se o avô tem 35 anos e está preso há sete, se a avó tem 33 e trabalha 12 horas por dia, a limpar os corredores do hipermercado, desde que haja amor materno.
Dizem que há outras soluções... que o Estado tem orfanatos, "tipo casa pia", onde o pequeno pode, quem sabe, aprender um ofício.
Dizem que se o Estado não o fizer, a Igreja o fará.
Dizem que, se nenhum destes resolver a "questão", há famílias equilibradas e normais, perturbadas, tão-só, pelo desejo dos anos e pela frustração dos meses, que estão dispostas a amar, a qualquer preço.
Dizem que o zézinho, à data, um aglomerado de células imperceptível, quando tiver 9 meses vai chamar-se bernardo. Quando atingir os 6 anos de idade, vai frequentar o colégio alemão e que quando tiver 16 irá à sua primeira festa na Kapital. Depois, quando chegar aos 18 anos, após embriagar a sua namorada, vai levá-la até à casa de fim-de-semana, em Azeitão, onde terão relações sexuais, de uma forma, mais ou menos, consentida. O zézinho vai pedir-lhe para passar lá o resto do fim-de-semana e ela acederá ao convite - porque no amor juvenil não há espaço para temores e dúvidas - alertando-o, no entanto, que deixou a caixa da pílula em casa, em Lisboa. Então o zézinho dir-lhe-à: "Não te preocupes, eu não me vim dentro de ti!" e ela sorrirá timidamente. Até porque a tia tété e a tia biducha nunca lhes explicaram que, para engravidar, não é necessário que a ejaculação ocorra dentro da vagina, bastando a mera penetração e a libertação de fluídos que contenham esperma. Também, nas aulas de Educação Sexual (quando as há), esse tema foi abordado, de forma ténue, no mesmo dia em que se ensinou o modo correcto de colocar o preservativo, mas eles estavam demasiado ocupados a troçar com o Ismael: "Se isso ficar pequeno, cortas a ponta!". O zézinho nunca tem problemas e das duas uma: ela vai até Espanha e resolve o assunto - com sorte os pais dela nem têm conhecimento do sucedido - e depois termina-se a relação, porque a experiência da rapariga é um fardo demasiado pesado para ele carregar (na sua óptica, a solução ideal) ou, se ela não estiver mesmo disposta e fizer muita questão, casam e, no futuro, o zézinho torna-se presidente, por convicção, de uma associação do género "famílias unidas pela virtude e moral", "pais pela decência" ou "famílias numerosas e felizes".
Dizem que as mulheres são criminosas...porque não optaram, no imediato, pela missão divina da maternidade. Porque, conscientes da insustentabilidade da situação, com o apoio dos seus "companheiros", tomaram a única solução, moral e eticamente, correcta. Porque escolheram uma maternidade responsável e digna que, se alguma vez se verificar, será num futuro com condições, num manto de afecto e sem estigmas. Porque dar vida implica responsabilidade ilimitada e um compromisso eterno. Porque, futuramente, se assim o entenderem, poderão ser Mães.
Dizem que as mulheres são umas putas, seres decadentes e porcas...talvez sejam...quando não permitem que as outras possam, livre e conscientemente, em condições dignas, escolher.
Dizem que as mulheres são criminosas...talvez sejam...quando aparecem na televisão a apregoar a mensagem do Santo Padre e a regurgitar a boa nova do direito à vida, mal assimilada em conversas de esplanada, no Guincho, ou em reuniões de fim de tarde na Quinta da Marinha.
Dizem que meninas de 16 anos são boas mães ou...?!
Dizem que as mulheres são seres decadentes...que perderam a feminilidade romântica, outrora regaço da masculinidade envergonhada.
Dizem que as mulheres são porcas... que são seres tristes, de ventre oco, por renunciarem à sua condição predestinada de amamentar.
Dizem que são vazias...que expõem a loucura dos tempos modernos e que, num esbracejar imperceptível, sacodem o sonho da maternidade.
Dizem que são criminosas.
Dizem que são egoístas e inconscientes...que não procuram alternativas e que, pela sua fraqueza, redundam no facilitismo.
Dizem que a pílula e o preservativo são pecado...que o termómetro é um método contraceptivo fiável.
Dizem, até, que uma menina de 16 anos é uma excelente mãe...que é uma heroína, vangloriada em panfletos cor de rosa e azul bébé. Dizem que a barraca, apesar de tudo, tem condições...que não interessa a ausência do pai, que não importa se o avô tem 35 anos e está preso há sete, se a avó tem 33 e trabalha 12 horas por dia, a limpar os corredores do hipermercado, desde que haja amor materno.
Dizem que há outras soluções... que o Estado tem orfanatos, "tipo casa pia", onde o pequeno pode, quem sabe, aprender um ofício.
Dizem que se o Estado não o fizer, a Igreja o fará.
Dizem que, se nenhum destes resolver a "questão", há famílias equilibradas e normais, perturbadas, tão-só, pelo desejo dos anos e pela frustração dos meses, que estão dispostas a amar, a qualquer preço.
Dizem que o zézinho, à data, um aglomerado de células imperceptível, quando tiver 9 meses vai chamar-se bernardo. Quando atingir os 6 anos de idade, vai frequentar o colégio alemão e que quando tiver 16 irá à sua primeira festa na Kapital. Depois, quando chegar aos 18 anos, após embriagar a sua namorada, vai levá-la até à casa de fim-de-semana, em Azeitão, onde terão relações sexuais, de uma forma, mais ou menos, consentida. O zézinho vai pedir-lhe para passar lá o resto do fim-de-semana e ela acederá ao convite - porque no amor juvenil não há espaço para temores e dúvidas - alertando-o, no entanto, que deixou a caixa da pílula em casa, em Lisboa. Então o zézinho dir-lhe-à: "Não te preocupes, eu não me vim dentro de ti!" e ela sorrirá timidamente. Até porque a tia tété e a tia biducha nunca lhes explicaram que, para engravidar, não é necessário que a ejaculação ocorra dentro da vagina, bastando a mera penetração e a libertação de fluídos que contenham esperma. Também, nas aulas de Educação Sexual (quando as há), esse tema foi abordado, de forma ténue, no mesmo dia em que se ensinou o modo correcto de colocar o preservativo, mas eles estavam demasiado ocupados a troçar com o Ismael: "Se isso ficar pequeno, cortas a ponta!". O zézinho nunca tem problemas e das duas uma: ela vai até Espanha e resolve o assunto - com sorte os pais dela nem têm conhecimento do sucedido - e depois termina-se a relação, porque a experiência da rapariga é um fardo demasiado pesado para ele carregar (na sua óptica, a solução ideal) ou, se ela não estiver mesmo disposta e fizer muita questão, casam e, no futuro, o zézinho torna-se presidente, por convicção, de uma associação do género "famílias unidas pela virtude e moral", "pais pela decência" ou "famílias numerosas e felizes".
Dizem que as mulheres são criminosas...porque não optaram, no imediato, pela missão divina da maternidade. Porque, conscientes da insustentabilidade da situação, com o apoio dos seus "companheiros", tomaram a única solução, moral e eticamente, correcta. Porque escolheram uma maternidade responsável e digna que, se alguma vez se verificar, será num futuro com condições, num manto de afecto e sem estigmas. Porque dar vida implica responsabilidade ilimitada e um compromisso eterno. Porque, futuramente, se assim o entenderem, poderão ser Mães.
Dizem que as mulheres são umas putas, seres decadentes e porcas...talvez sejam...quando não permitem que as outras possam, livre e conscientemente, em condições dignas, escolher.
Dizem que as mulheres são criminosas...talvez sejam...quando aparecem na televisão a apregoar a mensagem do Santo Padre e a regurgitar a boa nova do direito à vida, mal assimilada em conversas de esplanada, no Guincho, ou em reuniões de fim de tarde na Quinta da Marinha.
Dizem que meninas de 16 anos são boas mães ou...?!

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