O CAVALO BRANCO
Estas notícias que anunciam morte fazem-me sempre recuar à caixa de recordações de infância. Um baú estanque, que permanece inalterado face à persistência do tempo e à insistência irritante do esquecimento. É uma caixa velha, de madeira, que tenho bem guardada e que de vez em quando ou de quando em vez lá se abre e assusta-me com passagens que julgava esquecidas.
Lembro-me do meu avô. Curiosamente tinha o mesmo nome do pai do novo célebre morto. Lembro-me dos serões passados nas terras do Douro, na sua casa, verdadeiramente sua, que construiu apoiado num tosco esboço do meu pai. Diziam que o rapazola tinha jeito para o desenho. O projecto da cozinha é que não convenceu a minha avó que depressa substituiu o lugar por uma sala de estar e de jantar. Nunca a conheci mas sei, por fotografias, que tinha o mesmo olhar do meu pai.
Do meu avô lembro-me bem. Felizmente pude conviver com ele durante largos anos até que a doença, irremediavelmente estúpida, resolveu acompanhá-lo até à nossa despedida na cama do hospital. Não tenho por hábito recordar os "adeus" e os "até à próxima" mas lembro-me bem dessa despedida, do último aperto de mão, da sua última súplica para que não o largasse. Nunca me pediu socorro, estava só a despedir-se com a serenidade e bravura que sempre o caracterizaram...mas estava assustado. Pela primeira vez, senti-o com medo.
Não acredito em quem diz não ter medo da morte. Se o diz, fá-lo por inconsciência ou falta de concretização dessa realidade absoluta. Pensei sempre que o meu avô não teria...O célebre morto afirmou, doze anos antes, que não receava a tal senhora vestida com um lençol e até fez uma analogia com a ausência de medo dos cães da sua filha. No seu intímo, quando a sentiu bafejar junto à sua nuca, aposto que o temor se apoderou de si e, se pudesse, viveria os anos necessários até ver o seu sonho concretizado: o fim da exploração do Homem pelo homem.
Recuo até uma noite quente na década de oitenta, na sala do meu avô, abençoada com uma televisão a cores, no tempo em que naquelas terras a TVE se apanhava com maior nitidez do que a RTP. Lembro-me das primeiras imagens que guardo de Álvaro Cunhal. Cabelo branco, tal como a camisa, e umas sobrancelhas proeminentes. Recordo a forma como o meu avô se referia a esta figura fascinante: O cavalo branco! Durante anos, sempre que aparecia aquela figura na televisão, o meu avô dizia com ar trocista: "olha o cavalo branco!". Obviamente, o meu avô nunca foi comunista e não sentia especial apreço por essa ideologia, pelo contrário.
Curioso é que tinham mais em comum do que alguma vez o meu avô suspeitaria. Sempre que Cunhal aparecia na televisão a lembrança do meu avô surgia automaticamente.
Confesso que aquela primeira recordação do dirigente comunista ficou-me gravada na memória para sempre e, desde então, exerceu sobre mim um profundo fascínio, integrando aquele colectivo de recordações de infância que constituem o nosso imaginário mítico, onde se torna difícil distinguir os factos da ficção.
Porquê não sei mas é um facto que nunca disse ao meu avô o quanto ele me lembrava o Álvaro Cunhal. Tinham a mesma força, a rara inteligência que os movia na prossecussão dos seus objectivos, certo que em dimensão e universos distintos, que julgo até nem se tocarem.
Provavelmente, o meu avô não apreciaria que eu estabelecesse esta espécie de paralelismo entre duas figuras que me marcaram e impressionaram profundamente. Era um homem simples, que gostava mesmo era do campo e que dos tempos de polícia guardava só a disciplina que, em vão, me tentava incutir. Certamente não só por isso, mas também porque não gostava mesmo nada do Cavalo Branco.
Mas a verdade é esta: o meu avô marcou-me de forma ímpar, como os bons avós fazem, numa dimensão humana, familiar, ensinando-me os valores da rectidão, honra, ambição (num bom sentido de querer mais da vida), até mesmo da solidariedade - de uma forma peculiar - mas, acima de tudo, deu-me amor. O Dr. Cunhal revelou-se um bom exemplo daquilo que o meu avô tentava transmitir, mesmo sem saber que, desde aquela noite quente da década de oitenta, tinha o exemplo perfeito daquilo que, na sua concepção, o neto deveria procurar ser.
Eram muito parecidos, nem que fosse só pelas sobrancelhas...
Lembro-me do meu avô. Curiosamente tinha o mesmo nome do pai do novo célebre morto. Lembro-me dos serões passados nas terras do Douro, na sua casa, verdadeiramente sua, que construiu apoiado num tosco esboço do meu pai. Diziam que o rapazola tinha jeito para o desenho. O projecto da cozinha é que não convenceu a minha avó que depressa substituiu o lugar por uma sala de estar e de jantar. Nunca a conheci mas sei, por fotografias, que tinha o mesmo olhar do meu pai.
Do meu avô lembro-me bem. Felizmente pude conviver com ele durante largos anos até que a doença, irremediavelmente estúpida, resolveu acompanhá-lo até à nossa despedida na cama do hospital. Não tenho por hábito recordar os "adeus" e os "até à próxima" mas lembro-me bem dessa despedida, do último aperto de mão, da sua última súplica para que não o largasse. Nunca me pediu socorro, estava só a despedir-se com a serenidade e bravura que sempre o caracterizaram...mas estava assustado. Pela primeira vez, senti-o com medo.
Não acredito em quem diz não ter medo da morte. Se o diz, fá-lo por inconsciência ou falta de concretização dessa realidade absoluta. Pensei sempre que o meu avô não teria...O célebre morto afirmou, doze anos antes, que não receava a tal senhora vestida com um lençol e até fez uma analogia com a ausência de medo dos cães da sua filha. No seu intímo, quando a sentiu bafejar junto à sua nuca, aposto que o temor se apoderou de si e, se pudesse, viveria os anos necessários até ver o seu sonho concretizado: o fim da exploração do Homem pelo homem.
Recuo até uma noite quente na década de oitenta, na sala do meu avô, abençoada com uma televisão a cores, no tempo em que naquelas terras a TVE se apanhava com maior nitidez do que a RTP. Lembro-me das primeiras imagens que guardo de Álvaro Cunhal. Cabelo branco, tal como a camisa, e umas sobrancelhas proeminentes. Recordo a forma como o meu avô se referia a esta figura fascinante: O cavalo branco! Durante anos, sempre que aparecia aquela figura na televisão, o meu avô dizia com ar trocista: "olha o cavalo branco!". Obviamente, o meu avô nunca foi comunista e não sentia especial apreço por essa ideologia, pelo contrário.
Curioso é que tinham mais em comum do que alguma vez o meu avô suspeitaria. Sempre que Cunhal aparecia na televisão a lembrança do meu avô surgia automaticamente.
Confesso que aquela primeira recordação do dirigente comunista ficou-me gravada na memória para sempre e, desde então, exerceu sobre mim um profundo fascínio, integrando aquele colectivo de recordações de infância que constituem o nosso imaginário mítico, onde se torna difícil distinguir os factos da ficção.
Porquê não sei mas é um facto que nunca disse ao meu avô o quanto ele me lembrava o Álvaro Cunhal. Tinham a mesma força, a rara inteligência que os movia na prossecussão dos seus objectivos, certo que em dimensão e universos distintos, que julgo até nem se tocarem.
Provavelmente, o meu avô não apreciaria que eu estabelecesse esta espécie de paralelismo entre duas figuras que me marcaram e impressionaram profundamente. Era um homem simples, que gostava mesmo era do campo e que dos tempos de polícia guardava só a disciplina que, em vão, me tentava incutir. Certamente não só por isso, mas também porque não gostava mesmo nada do Cavalo Branco.
Mas a verdade é esta: o meu avô marcou-me de forma ímpar, como os bons avós fazem, numa dimensão humana, familiar, ensinando-me os valores da rectidão, honra, ambição (num bom sentido de querer mais da vida), até mesmo da solidariedade - de uma forma peculiar - mas, acima de tudo, deu-me amor. O Dr. Cunhal revelou-se um bom exemplo daquilo que o meu avô tentava transmitir, mesmo sem saber que, desde aquela noite quente da década de oitenta, tinha o exemplo perfeito daquilo que, na sua concepção, o neto deveria procurar ser.
Eram muito parecidos, nem que fosse só pelas sobrancelhas...

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