25.11.04

O Império

Pessoa não foi feliz. Ideia estúpida a que transborda do conceito de um nacionalismo esotérico. De uma pátria que de tanto esperar perdeu a fé e a confiança em si. Assim estamos: uma nação hipotecada pela colectiva demanda de um império espiritual.
Um país eternamente adiado, à guarda de brasões e armas envoltos num místico manto de nevoeiro, sempre preso ao culto da viagem. Dez milhões de heráldicos consumidos, dia após dia, pelo mar que tomou, como suas, as caravelas.
Um império tão imenso que, na sua insignificância, se esqueceu das terras e das gentes para lá do Marão.
Um abismo colonial que, teimosamente, insiste em mostrar-se...que, num bafejo deseperado, nos conduziu às manifestações de lenços brancos e aos cordões humanos...a pátria é assim mesmo: do Minho a Timor! Um povo que celebra Lorosae, que festeja os resquícios da nossa fortaleza em mares holandeses e de quem tão rápido se esqueceu.
África deu-nos uma mão mão cheia de errantes que retornaram e que teimam em não regressar. Uns quantos senhores e senhoras - respeitáveis, é certo - que nunca exploraram ninguém. Senhores e senhoras que nunca acabaram a viagem e vão trazendo, na mala, sonhos turvos de um Portugal que não é aqui!
Fala Pessoa de um "inteiro Portugal", "universal perante a cruz". Fala de um Portugal pequeno, sufocado ente o sonho de Ibéria e do regresso às marés. Discorre sobre um Portugal vagabundo, sempre preparado para soltar amarras e partir sem glória.
Chegado é o tempo das nossas gentes olvidarem esse Império imaginado. De se libertarem dos astros e das áfricas. De limparem o sal dos ossos dos seus avós, enquanto os roubam às profundezas dos oceanos calcorreados, e se aperceberem que dessas viagens já só restam os esqueletos.