4.5.05

Um homem de outros tempos

Efectivamente, há que dizê-lo: O Dr. Paulo Portas não é um homem dos nossos tempos. Usualmente, esta expressão visa elogiar Homens de craveira, personalidades que conseguiram ver para além da sua realidade, do seu mundo e do seu tempo.
Ora, no caso em apreço, pretende, somente, constatar uma realidade: O Dr. Paulo Portas deveria ter nascido há quarenta anos. Com efeito, as suas ideias, postura e comportamento reflectem a perturbação indizível do denominado "Complexo de Direita".

O Dr. Paulo Portas foi Ministro da Defesa... O Dr. Paulo Portas não tem conhecimento da realidade dos nossos militares.

O Dr. Paulo Portas tentou explicar-nos que homenageava militares que conjugaram o verbo "ficar", enquanto os outros se retiravam das províncias ultramarinas. Creio que, no seu íntimo, o Dr. Paulo Portas os despreza por terem partido de África ou Timor. O Prof. Oliveira Salazar, no seu íntimo, tê-los-ia desprezado. Aliás, foi este nosso Professor que enviou uma mensagem ao General Vassalo e Silva quando à meia noite de 17 de Dezembro de 1961, 30 000 soldados indianos começaram a invadir o pequeno enclave de Goa - protegido por 3 mil soldados portugueses - ordenado-lhe que resistisse até ao último homem, mandando, também, distribuir panfletos entre os soldados portugueses dizendo-lhes que, se o inimigo atacasse, teriam ao seu lado 10 000 arcanjos armados de espadas flamejantes...Mas não esqueçamos, ainda, que este nosso Professor só permitiu o regresso dos nossos oficiais, entretanto presos pelo exército indiano, após três meses de cativeiro, tendo sido recebidos de noite, em Lisboa, quase em segredo, sem que as famílias os pudessem esperar. Posteriormente, a maioria deste oficiais foi demitido... Talvez o sonho do Dr. Paulo Portas fosse ser Professor para poder ensinar aos nossos militares a conjugação do verbo "ficar"...

O Dr. Paulo Portas não conseguiu compreender a realidade dos militares dos nossos tempos. O Dr. Paulo Portas não vislumbrou que muitos dos nossos oficiais superiores eram, alferes, tenentes, capitães ou majores aquando do 25 de Abril. Outros, eram cadetes da Academia militar - à data, uma espécie de foco de propagação dos ideais que estiveram na base dos 3 "D". Por isso, talvez o Dr. Paulo Portas não tenha a percepção que será recordado, por um larguíssimo sector das nossas forças armadas, como um dos piores ministros da defesa pós 25 de Abril. Talvez nem tenha a noção de que a sua saída foi celebrada de forma efusiva. Aparentemente, o Dr. Paulo Portas não logrou sequer entender que, desde 74, os então jovens oficiais assumiram um compromisso inabalável com o seu povo: "Fascismo nunca mais!".

O Dr. Paulo Portas não se apercebeu que a longa estrada que desembocou na Revolução dos Capitães começou a ser trilhada com a humilhação militar em Goa - pelo exemplo dos que não conjugaram o verbo "ficar" -, seguida dos devaneios nas colónias Africanas e, finalmente, definida pelo demente decreto do outro Professor - Caetano de seu nome - que equiparava os jovens milicianos aos capitães. Acima de tudo, não percebeu que os nossos militares não gostam da guerra, que são os primeiros a sair em defesa da paz. Por uma razão simples: em caso de conflito armado são os primeiros a ser destacados e a morrer.

O Dr. Paulo Portas não compreendeu que as referências dos nossos oficiais superiores são os Generais Costa Gomes, Humberto Delgado, Ramalho Eanes ou Spínola e outros como Henrique Galvão, Salgueiro Maia, Otelo...Que os nossos oficiais superiores têm bem presente a cerimónia do "beija-mão" que Caetano presidiu. O Dr. Paulo Portas deveria saber que as nossas forças armadas não se deixam comprar com submarinos ou material de guerra inoperante e inútil. As nossas Forças Armadas pretendem, somente, actuar no plano da cooperação internacional, ter equipamentos eficazes para as suas missões e, acima de tudo, têm bem presente as sucessivas guerras nas quais foram obrigados a combater, por interesses injustos e ideais que não partilhavam.

Por tudo isto, o Dr. Paulo Portas será homenageado por "serviços públicos distintos" por um senhor, com ares de Professor, que também não é deste tempo e que vive no lado de lá do Atlântico...