20.1.05

Retirem o Toureiro - João Esteves Pinto

Porquê escrever uma palavra?
Uma única sequer?

Porquê acrescentar
à força genética
De cada célula que me enforma
Actos que proponham uma estratégia
Um modelo
Uma esperança
Porquê?

Eu estou aqui
E não tenho senão
Este traje pobre de "espontâneo"
Que anda a adelgaçar-se
Diante das hastes do Touro
E que fintou a última investida
A de ontem
E as de sempre.

Quem sou eu
Senão o que esteve antes de mim?

Quem sou eu
Senão a força que me impeliu a ser?

Quem sou eu
Senão a inércia de um impulso
Anterior à minha consciência
À surpresa do meu rosto
A reflectir no espelho
O meu gosto e desgosto de existir?
Quem sou eu
Senão esta anotação à margem
Palavra adjacente de glosador
Que põe nas entrelinhas
As únicas palavras que são minhas?

João!

Escuta o clamor
Ensaia mais um passe
Faz o teu melhor
Mais uma faena!
Mais uma!
O teu fato de combate
O minimamente decente
"Traje de luces"
Está roto e sebento
Por todas as dúvidas
Da idade do tempo

...Segue o espectáculo
(Não lhe chamem espectáculo
Ele é um ritual...)
E levanta-se um novo clamor
-olhem! desta vez é o desastre!...-
É a hora solene e única
Em que o sol queima a retina
E se fracturam os ossos
E há sangue pelo areal
E tudo prossegue
Até ao momneto do olhar
Vazio e frio
O momento mineral...

...tinha que ser assim
Vamos lá... o jogo é este
E não digam que está viciado
Toquem a música
Deixem passar a besta
Deixem passar!
Desta vez
Chegou a vez...

RETIREM O TOUREIRO.