O TDI (Trabalhador Discreto e Insipiente)
Eu sinto que há algo entre nós. Sinto que a força da minha imaginação é capaz de criar uma forte mulher. Sei que sou capaz de criar um segredo, partilhado entre eu e eu.
Eu sinto que há algo entre o meu e eu. Sinto que a potência do meu carro é suficiente para criar um homem de sucesso. Sei que consigo criar uma ilusão...
1900 de imagem e 105 cavalos a arrastar o meu ego, debitando gasóleo e a queimar pneu, enquanto acelero na faixa da esquerda, deixando para trás 1200 sinceras desculpas e 75 cavalos para abate.
Lá mais à frente estão as bandas sonoras para me lembrar que é uma boa altura para tirar o pé do acelerador. Indiferente, ponho o pé a fundo em direcção a esse novo destino.
[Mas lembro-me do meu amigo, que é um homem de palavra, gentil e sincero, atormentado pelo desígnio da fantasia.
E essa merda do amor...meteu baixa. Não esforça muito o coração e espera não recidivar. O médico até já lhe disse que a companhia era o único fármaco que lhe iria prescrever. E ele até tomou, de acordo com a posologia - 2 vezes por dia, dizia na embalagem, bonitinha, como nestas ocasiões se quer.]
Modero a velocidade, reduzo para 4.ª e vou para a faixa da direita. Na do meio, vem o tal carro cinzento, com 1200 desculpas e 75 cavalos para abate. Deixo-me ficar - até porque seria demasiado fácil ultrapassá-lo, mesmo pela direita - e recordo todos aqueles vultos a esbracejar, genuínos e despreocupados. Enfim, estavam lá todos...as festas e os dramas.
Eis que o seu pneu dianteiro, da direita, rebenta e numa brusca mudança de direcção vejo-os atravessarem-se na minha faixa, ali a uns 200 metros, estávamos frente a frente...
Travei a fundo, reduzi, primeiro, para 3.ª e, depois, para 2.ª...Fitei-os durante breves instantes...sorri, com saudade, eu admito...pé a fundo e deixei o turbo fazer o resto...
No retrovisor, vi-os sair e discutir sobre quem ia trocar o pneu...Adiante, mirei-os outra vez...as sombras, os vultos...
A vida é fácil...sempre foi...
[Ah! Ainda é verdade que o meu amigo não tinha culpa e ela, sem desculpa, quase que lhe prometeu o regresso. Ao que parece, achava ela que, também, andava doente.]
Eu sinto que há algo entre o meu e eu. Sinto que a potência do meu carro é suficiente para criar um homem de sucesso. Sei que consigo criar uma ilusão...
1900 de imagem e 105 cavalos a arrastar o meu ego, debitando gasóleo e a queimar pneu, enquanto acelero na faixa da esquerda, deixando para trás 1200 sinceras desculpas e 75 cavalos para abate.
Lá mais à frente estão as bandas sonoras para me lembrar que é uma boa altura para tirar o pé do acelerador. Indiferente, ponho o pé a fundo em direcção a esse novo destino.
[Mas lembro-me do meu amigo, que é um homem de palavra, gentil e sincero, atormentado pelo desígnio da fantasia.
E essa merda do amor...meteu baixa. Não esforça muito o coração e espera não recidivar. O médico até já lhe disse que a companhia era o único fármaco que lhe iria prescrever. E ele até tomou, de acordo com a posologia - 2 vezes por dia, dizia na embalagem, bonitinha, como nestas ocasiões se quer.]
Modero a velocidade, reduzo para 4.ª e vou para a faixa da direita. Na do meio, vem o tal carro cinzento, com 1200 desculpas e 75 cavalos para abate. Deixo-me ficar - até porque seria demasiado fácil ultrapassá-lo, mesmo pela direita - e recordo todos aqueles vultos a esbracejar, genuínos e despreocupados. Enfim, estavam lá todos...as festas e os dramas.
Eis que o seu pneu dianteiro, da direita, rebenta e numa brusca mudança de direcção vejo-os atravessarem-se na minha faixa, ali a uns 200 metros, estávamos frente a frente...
Travei a fundo, reduzi, primeiro, para 3.ª e, depois, para 2.ª...Fitei-os durante breves instantes...sorri, com saudade, eu admito...pé a fundo e deixei o turbo fazer o resto...
No retrovisor, vi-os sair e discutir sobre quem ia trocar o pneu...Adiante, mirei-os outra vez...as sombras, os vultos...
A vida é fácil...sempre foi...
[Ah! Ainda é verdade que o meu amigo não tinha culpa e ela, sem desculpa, quase que lhe prometeu o regresso. Ao que parece, achava ela que, também, andava doente.]
